A colonização das terras paulistas teve início no século XVI através de um impulso similar às outras regiões brasileiras em processo de colonização. No entanto, muito embora inserida na dinâmica do sistema colonial vigente, a região de São Paulo manteve características peculiares em todo o processo.

Índios, colonos portugueses e clérigos da Companhia de Jesus formaram inicialmente os três grandes grupos a comporem um cenário de tensões, guerras e conflitos que balizaram todo o movimento de conquista dos povos indígenas, os quais eram os primeiros e legítimos habitantes da região.

A cidade de São José dos Campos originou-se como aldeia, dentro da concepção política colonial de aldeamento, situação que indicava presença do indígena e do branco colonizador em um mesmo local. Tal política teve início no século XVI, quando colonos e jesuítas empreenderam sua luta pelo controle da mão de obra do indígena brasileiro. O primeiro núcleo da Aldeia de São José do Parahyba teve início em uma fazenda de gado administrada por jesuítas na região do Rio Comprido, divisa com a cidade de Jacareí. Em torno de 1680 o padre jesuíta Manoel de Leão transferiu o aldeamento para seu local definitivo, situado onde hoje se encontra a igreja Matriz da cidade.

O projeto jesuítico de aldeamento visava construir uma forte estrutura na qual o indígena, uma vez submetido ao cristianismo, desse continuidade ao trabalho nas roças e lavouras, e assim, mediante salários módicos, servir aos colonos nas mais diversas modalidades de trabalho. Não obstante a desestruturação social que tal mecanismo engendrou entre as comunidades indígenas, os aldeamentos assim concebidos significavam uma possibilidade de existência de uma mão de obra livre.

Os indígenas foram, portanto, os primeiros habitantes da Aldeia de São José do Parahyba, futura cidade de São José dos Campos. Em suma, o que se pode afirmar em relação aos primórdios da atual cidade de São José é que ela está ligada às relações entre jesuítas e indígenas e, posteriormente, com a expulsão dos padres inacianos, à administração do poder civil, representado pelos Diretores de Aldeamentos, designados pelo Governador da Capitania.

Em 1767 a pequena Aldeia de São José foi elevada à condição de Vila, em sintonia com as políticas adotadas pelo então Governador da Capitania, Morgado de Mateus, o qual buscou, com essa estratégia, intensificar a vigilância sobre a população indígena da cidade, evitando sua dispersão. A Vila de São José do Parayba permaneceu pacata e com  uma economia basicamente de subsistência até meados de 1850, quando a fase áurea do café no Vale do Paraíba deixa sua contribuição, embora pequena para São José, que é elevada à categoria de cidade em 1864, ganhando Comarca própria em 1872. Em 1871 São José recebe o nome que ostenta até hoje, ou seja, São José dos Campos.

De acordo com a historiografia clássica, a lavoura cafeeira no Vale do Paraíba teria surgido na região fluminense em torno de 1820 e a partir daí se disseminado por todo o Vale do Paraíba Paulista, sendo que, em finais da década de trinta, algumas cidades valeparaibanas como Areias, Lorena, Guaratinguetá, Bananal, Pindamonhangaba e Taubaté se tornam importantes núcleos de produção cafeeira e com uma grande quantidade de trabalhadores escravos. A partir do fim da década de setenta, essa lavoura intensifica-se cada vez mais na região do Oeste Paulista, onde cidades como Campinas, São Simão, Ribeirão Preto e outras próximas, conquistam de maneira acelerada, cafezais, escravos e riquezas.

A cidade de São José dos Campos, próxima à Jacareí, Caçapava, Santa Isabel, Jambeiro, Paraibuna e Taubaté, com certeza nunca mereceu lugar de destaque entre as cidades valeparaibanas produtoras de café, de finais do séc. XIX. Embora apresentando um quadro de crescimento na produção cafeeira entre 1850 e 1886 ( sendo 1886 o seu ápice ) São José dos Campos não chegou a conhecer os famosos barões do café do Vale do Paraíba, ou mesmo grandes e poderosos coronéis, que chegavam a comandar toda uma região.

Provavelmente seja essa uma peculiaridade das lavouras de café de São José dos Campos de finais do séc. XIX. Mesmo as maiores fazendas não deveriam ter as dimensões que as grandes fazendas dos barões do café tiveram nos áureos tempos da cafeicultura, no Vale do Paraíba Paulista. O número de escravos encontrados nos Inventários e Testamentos das décadas de setenta e oitenta da cidade de São José dos Campos é um indicativo dessa característica. A grande maioria dos lavradores possuía, em média, de 10 a 15 trabalhadores escravos em suas fazendas. Alguns poucos proprietários chegavam a contar com o trabalho de 30 escravos em suas lavouras. Isso sem considerar que uma grande quantidade de Inventários, indicam a existência de sítios com apenas 3 ou 5 trabalhadores escravos em suas lides, ou seja, sitiantes e pequenos proprietários.

O que parece ficar claro – dada a peculiaridade da existência de pequenas e médias lavouras em São José dos Campos – seja talvez o destaque adquirido pelas firmas de beneficiamento de café, algumas ligadas à exportação do produto, que certamente se encontravam entre o ramo de negócio mais lucrativo do município. Para tais máquinas deveria ser levada, toda a produção do município, dividida entre pequenas, médias e grandes produções. A grande diferença iria naturalmente aparecer no montante da produção, com o consequente benefício para o comércio local.

São José dos Campos se industrializou sem que estabelecesse qualquer ligação com o “complexo cafeeiro” como outros pólos paulistas. No século XX, São José dos Campos se tornou uma cidade de destaque local, dando início a um processo de centralização e concentração de investimentos, população, equipamentos, etc. O marco foi a cidade sanatorial que atuou fortemente no setor terciário, através da instalação de serviços variados para atendimento dos doentes.

Foi um período importantíssimo para a cidade, no qual a presença da doença e dos doentes abriu a primeira porta de intervenções urbanísticas e das políticas públicas na cidade. Atraídos pelos ares, os doentes do peito chegavam aos bandos, procurando salvação. Foi pela via da doença que a cidade se modernizou. Essa modernização foi impressa em prédios, estruturas urbanas e bairros planejados, pela indústria e pela técnica, pela limpeza das ruas e alargamento das avenidas.

A cidade sanatorial transformou São José em um grande laboratório de políticas e projetos. A cidade era um depósito de balões de ensaio de instituições paulistanas, como a Santa Casa de Misericórdia. Numa ação conjunta da filantropia e do Estado, a cidade de São José dos Campos, estrategicamente colocada no caminho da Metrópole, acabava acolhendo os doentes que a capital paulista não dava conta de tratar. O sanatório Vicentina Aranha, patrocinado pela Santa Casa de São Paulo é inaugurado depois de muita campanha assistencialista, levando o nome da esposa do Senador Olavo Egydio de Souza Aranha, pela força da sua campanha caritativa.

A presença da doença e dos doentes abriu a primeira porta de intervenções urbanísticas e de planejamento estatal, o que transformou São José dos Campos em pólo regional do Estado de São Paulo. Foi com a condição sanatorial que São José se destacou como cidade no Vale do Paraíba. O autoritarismo, marcado pelos dois períodos ditatoriais, praticamente consecutivos (Estado Novo e ditadura militar) transformou a pacata vida da cidade de São José dos Campos. As intervenções do Estado nesta região foram, aparentemente, maiores que nas outras.

Até a fase sanatorial, São José dos Campos não conseguia atrair e manter uma população fixa. As novas terras do oeste paulista chamavam mais atenção, a ponto da Câmara local discutir formas de impedir a saída dessa população da cidade. Foi com a proposta sanatorial que São José dos Campos começa a ser atrativa, recebendo uma migração de pobres e doentes que deram origem a uma intensa urbanização. Foi essa população que movimentou a economia local.

Junto com essa migração de pobres e doentes veio o planejamento do espaço joseense. Através do decreto que transformou São José em Estância Climática e Hidromineral, O Estado buscou disciplinar a cidade, colocando em pauta a necessidade de uma normalização do espaço e das condutas em relação à doença e ao doente.

Nota-se, a partir da condição sanatorial, uma segregação espacial na cidade, diferenciando sãos e doentes. Considerada uma doença típica dos pobres e operários, o espaço da doença tinha que ser disciplinado. A expulsão dos pobres do centro da cidade justificava a higienização e a defesa da sociedade. A defesa da higienização e da salubridade do ar levou à desapropriação dos moradores da orla do banhado, por se considerar que suas habitações e modos de viver constituíssem focos de contaminação. As avenidas foram alargadas para darem vazão ao ar e torná-lo salubre. O medo passou a fazer parte da mentalidade. Medo do contágio. 
Como resultado da política sanatorial, acontece em 1938 o primeiro grande zoneamento, dividindo a cidade em zonas sanatorial, industrial, residencial e comercial. Nessa divisão funcional do espaço, devemos ressaltar a contraposição do espaço dos doentes. Localizados no alto do platô, os tuberculosos se isolavam dos trabalhadores, instalados em um Vale, no bairro de Santana.

Este foi o momento no qual São José dos Campos passou a receber investimentos estatais e a fazer parte das estratégias governamentais, criando as bases infra-estruturais que viabilizaram a cidade industrial moderna. Já no período sanatorial começou o processo de industrialização, no decorrer da década de 1920. Em função de incentivos da Prefeitura de São José dos Campos, chegaram as primeiras fábricas: as cerâmicas e a Tecelagem Parahyba. Esta primeira industrialização direcionou o crescimento da cidade para o bairro de Santana, primeiro bairro industrial da cidade.

A industrialização de São José dos Campos faz parte do processo de industrialização do Brasil, como um todo, e particularmente do estado de São Paulo. Podemos dividir o processo de industrialização joseense em três grandes fases:

 A primeira fase situa-se entre os anos de 1920 e o final da década da 1940. Nesse período, e em sintonia com o processo de industrialização mais geral, as indústrias instaladas em São José dos Campos representam o setor de cerâmica e tecelagem.

No final dos anos 1920 temos a instalação da Fábrica de Meias Alzira, do Sr. Pedro David. Entre 1921/1922 a Cerâmica Santo Eugênio e Cerâmica Santa Lúcia (depois Cerâmica Paulo Becker); entre 1925/1927 a Tecelagem Parahyba; em 1936  a Cerâmica Conrado Bonádio e na década de 1940 a indústria de Louças Irmãos Weiss

A característica dessas indústrias nessa fase é o emprego em grande escala da mão de obra feminina e infantil. È uma mão de obra pouco qualificada que faz seu aprendizado dentro da própria fábrica. A tecelagem Parahyba que chegou a deter 70% da produção nacional de cobertores caracterizou-se por seu assistencialismo (construção de uma vila operária, escola da fábrica e cooperativa de alimentos). É claro que esse assistencialismo tinha como contrapartida um controle maior dos trabalhadores por parte da fábrica. Não apenas no espaço do trabalho como nos momentos de lazer.

 A segunda fase industrial de São José dos Campos acontece a partir da década de 1950 até final dos anos 1960. O parque industrial de São José dos Campos nesse momento toma novo alento e caracteriza-se pela diversidade da produção.

Em termos de tecelagem a modernização começa com a vinda das fábricas Kanebo e Rodhosá (Rhódia). As indústrias que se instalam, porém, são dos mais variados tipos: Johnson e Johnson (1953), na área farmacêutica; Ericsson (1954), telefones e componentes eletrônicos; Bendix (1957) eletrodomésticos; General Motors (1957) automóveis; Eaton (1959), indústria de peças para automóveis; e ainda no final dos anos1950, desponta uma indústria aeronáutica, a Avibrás (1957; Alpargatas (1961) indústria de calçados e a Kodak (1969).

 Nesse período, as décadas de 1950 e 1960, trouxeram outras novidades que darão impulso às indústrias: a Rodovia presidente Dutra (1951) ligando as grandes metrópoles do Rio de Janeiro e São Paulo; O CTA, Centro Técnico Aeronáutico, hoje Aeroespacial, o ITA e o INPE (1961).

A diversidade das indústrias desse período apontavam para a rápida industrialização que o país estava passando nesses anos. Além disso o ITA, as escolas técnicas como ETEP e a fundação de Faculdades pela Fundação Valeparaibana de Ensino, apontavam para a necessidade de um operariado mais técnico e especializado. Enquanto isso, as indústrias de cerâmica e louças, com uma gestão familiar, entravam em declínio. A Tecelagem Parahyba procurava se modernizar para seguir em frente. A tônica nesse momento é a busca por trabalhadores mais qualificados, sendo que muitos chegam a São José dos Campos vindos de vários cantos do país e do exterior.

 A terceira fase da industrialização de São José dos Campos situa-se a partir dos anos de 1970 em diante, representando outro marco na história da cidade.  A criação da Embraer, em 1969, vai acentuar o perfil da cidade em relação à alta tecnologia. O novo boom industrial caracterizou-se por atender o projeto de sociedade e os desejos estratégicos dos militares no poder. Assim a Embraer, como a indústria bélica que se instalava na cidade, correspondiam a uma visão de mundo pragmática e militarista.

Passado o regime militar, em meados dos anos 1980 e 1990, a indústria joseense cresceu ainda mais em função das necessidades dos ramos aeronáutico e automobilístico, além de empresas que utilizam tecnologia de ponta. Sendo assim, o operariado joseense está hoje bem distante de seus companheiros dos anos vinte. A indústria hoje exige uma mão de obra extremamente qualificada o que faz com que São José dos Campos continue como polo de atração de migrantes, tanto de dentro como de fora do país.

Além disso, a industrialização transformou a paisagem urbana joseense, justamente para atender as demandas dos novos trabalhadores. Shoppings, grandes supermercados, avenidas largas, concentração imobiliária. São José perdeu o aspecto interiorano e pacato de suas congêneres do Vale do Paraíba e transformou-se, conseguindo com isso não só as benesses do crescimento e desenvolvimento como as mazelas das grandes cidades.


Maria Aparecida Papali (1)

Valéria Zanetti (2)

Maria José Acedo del Olmo (3)

1-Doutora em História Social, Professora e Pesquisadora da UNIVAP, coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Documentação Histórica do IP&D/UNIVAP/ Coordenadora do Núcleo de Pesquisa Pró-Memória São José dos Campos

2-Doutora em História Social, Professora e Pesquisadora da UNIVAP, membro do  Laboratório de Pesquisa e Documentação Histórica do IP&D/UNIVAP/ Coordenadora do Núcleo de Pesquisa Pró-Memória São José dos Campos

3- Mestre em História Social , pesquisadora colaboradora do Projeto Pró-Memória